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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

NA OITAVA CASA DA VIDA

    






CONTO ORIENTAL


Dois amigos se encontram depois de longos anos no elegante Club Libanês,no Cairo.
-Quanto tempo?Que pretendes nesse elegante caravançará?Queres matar o tempo,jogando uma partida de xadrez?
Ora,quem resistiria a um convite desses,partido de um homem tão inteligente e amável.Mal sentamos á mesa de jogo no fundo da sala,onde estava o tabuleiro com as peças:torres,cavalos,bispos,damas,reis e peões,meu amigo me perguntou:
-Soube que estiveste hoje com o Ministro Bechara –Bey,nosso ex-colega em Eton;Foste bem recebido?
-Qual!Tratou-me com empáfia e descortesia tal,que me desestruturou.Apesar da minha causa ser justa,ele não quis me ouvir,nem sequer quis ver os documentos que levei.Sua prepotência era tanta,que tive ímpetos de agredi-lo.
-E ele tinha algum motivo para te tratar assim?
-Não!Eramos amigos;nos tuteavamos;várias vezes o ajudei nos seus estudos.Mas,agora,com prestigio político,me ignora e destrata...
-Acontece,amigo,que o ministro,com toda sua mediocridade já atingiu a oitava casa da vida;e,de um homem assim,tudo se pode esperar.
Fiquei perplexo!Oitava casa da vida!?Que quereria ele dizer com Isso?Então,ouvi a explicação.
Vês esse peão?È a mais fraca peça do jogo de xadrez.Nada vale diante das outras.Mas,no desenrolar do jogo,o insignificante peão vai avançando de casa em casa.Protegido pelo rei,amparado pela dama,auxiliado pelo bispo,vai o peãozinho galgando o tabuleiro,subindo sempre.Para salva-lo,outros peões são sacrificados.O rei leva xeques,a dama corre de um lado pró outro fugindo dos cavalos inimigos e,a custo,desviando-se do ataque das torres.Chega,enfim,o peão á oitava casa!De acordo ás regras do jogo,não pode permanecer peão;tem que se transformar em dama,torre,bispo ou cavalo.
Assim acontece com os peões no tabuleiro,assim acontece com os homens no grande tablado da vida.Aquele que é feliz,sobe,faz carreira,recebe o auxilio do rei,como o nosso peãozinho;as damas o protegem,a sombra prestigiosa do bispo o livra das armadilhas.E,assim,tomando peças,agredindo,enganando,pisando nos outros peões,lá vai nosso amigo,atingindo seus objetivos,ocupando cargos de prestigio e opulência.
Ei-lo,afinal chefe,diretor,ministro,general ou presidente.
Alcançou a oitava casa da vida.
Aquele que tem boa formação,converte-se numa verdadeira dama;trata os outros com lhaneza e cortesia,é humilde e prestativo.
Outros se transformam em torre;na aparência,arrota honradez,apregoa,moral,passa por probo e incorruptível;mas,na verdade é desleal,invejoso e,seu único objetivo é realizar um pequeno roque e tomar o lugar do rei.
Também,há o modesto peãozinho que vira bispo;corre em auxilio dos fracos,abranda o xeque-mate da adversidade que tanto maltrata os menos favorecidos.
Agora,vamos encontrar o peão que,na oitava casa da vida se transforma em cavalo.Privado da razão que nobilita as pessoas racionais,passa a distribuir coices a torto e  a direito.Vira estúpido e grosseiro.Conhecendo suas limitações e,sendo por natureza,um fraco,enche-se de empáfia,faz pose de superior,porque,lá no fundinho sabe que não passa de uma estúpida cavalgadura.Tire o manto de ouro e veludo de um burro e,ele vira o que é:apenas um burro!Bufa indelicadezas e selvageria diante dos humildes e rincha sabujices e servilismo diante dos superiores:Sancho metamorfoseado em Rocinante!
Se algum dia,meu amigo,a sorte te bafejar -pela glória do Profeta- evita te transformares em cavalo.Triste,risível e doloroso é o destino de quem se converte em besta,na oitava casa da Vida.
Fonte:
AS MIL E UMA NOITES;UMA DAS HISTORIAS QUE SHERAZADE CONTAVA PRO SEU SULTÃO,NAS LONGAS NOITES NOS HARÉNS DE Bagdá,antes da era Bush.
Bendito seja Allah,Clemente e Misericordioso.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O ALBATROZ AZUL



Ninguém sabe...
Folgo em saber que o meu querido João Ubaldo voltou à sua melhor forma.
Falaria assim mesmo,de um jeito antiquado e empolado o barbeiro Nascimento,morador da Ilha de Itaparica e personagem do livro supra-citado.
O “Albatroz Azul”,novo livro de Ubaldo é um livro solar,com cores,tons,cheiros e linguajar da Ilha de Itaparica,onde passei meus veraneios de sonho.
Li.de supetão,assim que abri não consegui mais largar,sofregamente,bebendo nas suas páginas a sabedoria popular,tão abundante naquelas plagas,como nos cerrados e no sertão.
O autor cria diálogos divertidíssimos,usando ditados e chistes populares,que estão sempre na boca do povo.Tais como:” Marido velho com mulher nova ou corno ou cova.”
“O médico te limpa o corpo,o padre te limpa a alma e o advogado te limpa os bolsos”
Os personagens,deliciosos,vão surgindo ,canhestros,cheios de cerimônia,como a gente pobre da ilha;Tertuliano Jaburu,macho bastante para recusar posição e fortuna indignamente concedida, babando com o nascimento do neto,cujo nome escolheu dentro de todos os preceitos;o Gato Preto,seu amigo de infância,o Seu Zé Honório,de duvidoso passado e a toda poderosa Iá Cencinha,que se arvorava em senhora do destino de todos.
O livro é sobretudo, despretensioso.E fino.”Ninguém mais lê livrão”,justifica o autor.
E,quem sabe,diz muito em poucas palavras.Ou poucas escritas.
Através de Tertuliano,um personagem que tem vida(parece que o conheci)ganhamos uma visão nova da morte e da vida.
Começamos a cortejar velhos valores,a prestar atenção nas coisas cotidianas,pelas quais passamos sem enxergar.
É um livro filosófico?Talvez...Eu diria que é um livro maduro.Mas,é acima de tudo,humano!
O que nos impede de olhar para o céu, procurando o albatroz azul?Quem disse que ele não existe?
Veja quem tem olhos de ver e ouça quem tem ouvidos de ouvir...
Ubaldo tem 68 anos,eu 67 e é ai que a gente começa a ter uma nova visão das coisas,a prestar atenção,a valorizar cada momento vivido,mas,sem traçar planos.
“O homem que conhece a arte da vida deve sempre virar ao contrário o que lhe dizem,para ver se o certo não é esse contrário,de acordo com a realidade.”
Esse pequeno trecho do livro mostra que nós sabemos todas as sabedorias; mas,muitas vezes,não as reconhecemos.
O Albatroz Azul
Autor:João Ubaldo Ribeiro
Editora:Nova Fronteira
Palavra do leitor:
22/02/2010 07:30 - Milla PereiraExcelente resenha, Miriam. Adoro João Ubaldo, suas crônicas e td oque escreve,mas nao li este ainda. Vou sair e comprar assim q ocomercio abrir.Um lindo dia. Beijos, Milla
21/02/2010 21:14 - EDNA LOPESfico tão feliz em saber disso.. vou correndo ler pois amo a boa prosado nosso João.O último que li o Diário do farol, não achei graça..beijo, saudades ...
21/02/2010 21:35 - Norma Suely FacchinettiMiriam, excelente resenha e sugestão. Vou comprar para ler. Beijos,querida.