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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

SONETO DE NATAL


Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,
                                                        *

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

                           *


Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.
                                                      *

                                                                                  

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

                                           *



                                                                                   MACHADO DE ASSIS 

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

SONETO DE CASTRO ALVES: DULCE!





Se houvesse ainda talismã bendito

Que desse ao pântano - a corrente pura,

Musgo - ao rochedo, festa - à sepultura,

Das águias negras - harmonia ao grito...,



Se alguém pudesse ao infeliz precito

Dar lugar no banquete da ventura...

E tocar-lhe o velar da insônia escura

No poema dos beijos - infinito...,



Certo. . . serias tu, donzela casta,

Quem me tomasse em meio do Calvário

A cruz de angústias que o meu ser arrasta!. . .



Mas ,se tudo recusa-me o fadário,

Na hora de expirar, ó Dulce, basta

Morrer beijando a cruz de teu rosário!...



Castro Alves ,poeta baiano

quarta-feira, 5 de maio de 2010

PABLO NERUDA: SONETOS

Amor e Psique
Soneto XVII


Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio

ou flecha de cravos que propagam o fogo:te amo

te amo como se amam certas coisas obscuras,

secretamente, entre a sombra e a alma.



Te amo como a planta que não floresce e leva

dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,

e graças a teu amor vive escuro em meu corpo

o apertado aroma que ascendeu da terra.


Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,

te amo diretamente sem problemas nem orgulho:

assim te amo porque não sei amar de outra maneira,


senão assim deste modo em que não sou nem és

tão perto que tua mão sobre meu peito é minha

tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.


Pablo Neruda


Neruda foi, no século passado, um dos poetas que mais ajudou a difundir a "poesia dos catorze versos". Sua obra "100 sonetos de amor" percorreu o mundo, sendo traduzida em vários idiomas, inclusive o português. Repare no primeiro terceto, um dos mais bonitos da história dos sonetos.


Fonte:Sonetos.com.br

sábado, 6 de fevereiro de 2010

SÁBADO É DIA DE SONETO!


SONETO DE BOCAGE
Manoel Maria Barbosa de Bocage,poeta português

A teus mimosos pés,meu bem,rendido,
Confirmo os votos, que a traição manchara;
Fumam de novo incensos sobre a ara
que a vil ingratidão tinha abatido.



De novo sobre as asas de um gemido
Te of’reço o coração, que te agravara;
Saudoso torno a ti,qual torna à cara
perdida pátria o mísero bandido.



Renovemos o nó por mim desfeito,
que eu te maldiga o tempo desgraçado
em que a teus olhos não vivi sujeito;



Concede-me outra vez o antigo agrado
Que mais queres?Eu choro, e no meu peito
o punhal do remorso está cravado.
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