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sábado, 17 de abril de 2010

CENAS DE UM CASAMENTO BRASILEIRO




Maria acordou ás sete da manhã,meio estremunhada;olhou o relógio de cabeceira, aflita;hora de preparar os ovos mexidos e as torradas para a refeição matinal do marido.
Levantou-se, fez sua higiene pessoal, deu remédio ao velho cachorro de estimação, colocou leite na sua tigela e chamou o marido pois, já estava tudo preparado.
Maria agora era cozinheira, copeira e garçonete.
Sentou-se um pouco, passou a vista no jornal – só tragédias e crimes como sempre –engoliu um café preto com bolachinhas, como gostava e foi lavar a louça.
Despachado o marido para o escritório, varreu e passou um pano na casa, lavou e esterilizou o terraço onde o cão fazia as necessidades; lavou e perfumou o banheiro trocou as toalhas que pôs no cesto ; o cheiro bom de limpeza fez com que ela respirasse fundo,satisfeita.
Apanhou um livro, leu umas poucas páginas e foi colocar umas roupinhas na máquina.
Fez uma pequena prece silenciosa para todos aqueles caras que inventaram os eletro domésticos e encarou o serviço.Ligar, lavar, enxaguar, torcer,estender, secar.
Maria agora era lavadeira.
Maria tinha computador em casa, mas,nunca o abria; faltava tempo. E , ela bem que gostava de entrar no Facebook, jogar “Farm”, conversar com amigos virtuais.
11 hs da manhã –êta raio de tempo que corre – Maria foi dar o remédio do cachorro, passar pomada num machucado, preparar a ração.
Maria agora era veterinária.
Entrou na cozinha – preparar o que para hoje!? –decidiu-se por fazer um pouco de feijão, arroz temperado e um frango assado.Nada mais doméstico e trivial.
Sobremesa, gelatina de limão; o marido,adorava!
Limonada, para acompanhar.
Maria agora era chefe – de – cozinha.
Comeu frugalmente uma salada, tomou um suco e foi passar roupa.
Maria agora era passadeira.
Ás três Maria saiu ali perto até a agencia bancária para pagar contas.Enfrentou fila – Maria estava beirando os setenta,mas,agora tem tanto velho nas filas –depois,aproveitou para passar na padaria,buscar o pão quente.
Maria agora era secretária.
Ás cinco chegou o marido e, como sempre, ligou a TV.
Precisou de Maria para trazer-lhe as pílulas e um pouco de chá.
Foi até a cozinha, trouxe-lhe o jantar, depois lavou a louça.
Maria agora era enfermeira.
O marido, a TV, o cachorro ressonando na sala, seu mundo.
Maria apanhou linha, agulha e tesoura foi pregar uns botões numa camisa.
Maria agora era costureira.
A noite chegou exibindo uma bela e luminosa lua que Maria não reparou.
Saiu no terraço, verificou os portões, lavou mais um xixi do cachorro, molhou as plantas, consertou um pé de jibóia que estava se estendendo pelo chão,apagou as luzes,entrou em casa,apanhou um iogurte para o marido que lhe disse-Vou me deitar.Você vem?
Maria agora era jardineira.
Maria olhou cada cômodo da casa, verificou a geladeira, colocou o garrafão de água mineral no bebedouro doméstico, apagou a TV, verificou as janelas, e, enfim,foi deitar-se.
O marido reclamou:
-Não sei porque você demora tanto;não faz nada!
Maria puxou a coberta, enroscou-se nela.
Maria não sabia mais quem ela era.
IMG:Busca Google
FALA O LEITOR:
Jose Caudio ,escritor mineiro
- Eu sempre fiz um pouco de serviços domésticos e agora faço um pouco mais pelo fato de ficar mais em casa. Mas vou lhe dizer: NINGUÉM RECONHECE. Só se dá valor se tiver alguma coisa suja, alguma coisa faltando. As mulheres tinham mesmo que dar o grito da libertação. Ou o contrário, que seria melhor (mas creio quase impossível)os homens serem mais companheiros.
Paz e Bem!

sábado, 13 de março de 2010

PAPAI BALZAC E O CASAMENTO




Balzac ,apesar de celibatário convicto,sabia das coisas.
Seu livro,”A Fisiologia do Casamento”,narrava com humor e irreverência,os prazeres e percalços da vida conjugal,vista à maneira francesa nos idos de 1830.
O maior problema do casamento nesta época,era o desconhecimento,para as moças do que aconteceria no leito conjugal e,para os homens ,o total descaso sobre os mecanismos da fisiologia feminina,cujo despertar do desejo era mais tardio e totalmente diferente do desejo masculino;o amor romântico recém inventado,povoava de contos de fadas o imaginário dessas garotas e a violência brutal do desejo masculino,”exigindo carícias,plenas,obscenas”,como fala a música de Chico,assustava de tal modo as donzelas,que,praticamente, o casamento terminava aí.
Balzac aconselhava:-“Nunca comecem o casamento por uma violação”.
Ele comparava,de modo magistral ,o recém casado a um orangotango tentando tocar violino.
Um rico banqueiro estava a tocar seu violino , no jardim,quando Balzac reparou o macaco do dono,trazido de Bornéo,vir se achegando,de mansinho,embevecido,escutando os sons.
Num dado momento,o banqueiro se ausentou e deixou o violino no parapeito da janela;como a corrente que prendia o bugio era muito comprida,ele passou a mão no violino e correu com ele para baixo de uma árvore.
O nosso antepassado agarrou o instrumento e cheirou-o,como se fosse uma banana.
O violino emitiu um acorde e o macaco sacudiu a cabeça,voltou-o,mirou-o,de todos os ângulos,levantou-o no ar,agitou-o,colocou-o perto do ouvido,o largou no chão,tornou a apanhá-lo,com um ar de completa desconfiança e agradável surpresa.
Pôs o violino debaixo da barba e segurou com força,mas,ao ver o violino mudo,achou que não valia a pena perder tempo aprendendo a lição.Começou a puxar as cordas com vigor e saíram sons discordes,como era de se esperar.
Enraivecido com o seu fracasso ao produzir música,agarrou o arco e começou a surrar as cordas,sem dó,nem piedade;depois de destruir completamente o violino,sentou-se e começou a desfiar as louras sedas do arco,feito em pedaços.
Deste dia em diante, sempre que vou a um casamento,diz Balzac,não deixo de comparar o novel marido a um orangotango tentando tocar violino.
O amor é a mais doce e melodiosa das harmonias,disso sabemos.
A mulher é um delicado instrumento de prazer( as feministas vão querer o meu sangue,mas,sosseguem,garotas,é o Balzac dizia,não eu),mas,é necessário conhecer-lhe as cordas vibráteis,estudar-lhes a posição,dedilhar com maestria o teclado,acariciar as cordas.
Quantos orangotangos – digo- maridos casam sem ter noção do corpo da mulher!
Despedaçam o coração que não compreendem e falam de amor do mesmo jeito que escravos natos falam de liberdade;por ouvir dizer.
Começam por arrombar a porta alheia e querem ser bem recebidos na sala.
Mas,qualquer artista sabe que a dedicação e o conhecimento do seu instrumento,anos de observação e estudo é que cria a harmonia da música;assim,tocam uníssonos e ambos se tornam uma só alma.
Homens,maridos ou amantes,ajudei em alguma coisa?
Se querem uma melodia maravilhosa aprendam, ao menos ,a tocar o instrumento.

LEIA TAMBÉM:
TODO PODER ÀS MULHERES

FALA O LEITOR:
15/03/2010 17:33 - Maria IaciHoje, pelo menos, a mulher tem a prerrogativa de experimentar antesde casar... Bela crônica! Um beijo na testa. :)

15/03/2010 22:39 - Maria Olimpia Alves de Melop/mail
Uma crônica impecável, da primeira a última linha.


15/03/2010 15:19 - Rejane Chica TU ÉS SEMPRE FANTÁSTICA! E A IMAGEM,RSSRS,...BEIJOS,TUDO DE BOM,CHICA


17/03/2010 10:25 - Ivone Alves SOL,poetisa
Perfeita em estética linguística, humor e mensagem! Sua página é aprendizado e entretenimento. A imagina ficou ótima! Bjs, Miriam!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

AVENTURAS E DESVENTURAS DE UMA PROFESSORINHA DA ROÇA



Minha mãe,formada pela Escola Normal,aos 17 anos,cismou de ensinar no interior da Bahia,isso na década de 30,quando Lampião,o rei do cangaço,aterrorizava o sertão.Meu avô materno,homem extremamente conservador,nem queria ouvir falar nisso,mas,não sei como,minha mãe,frágil,tímida,mignon,e,muito obediente,conseguiu o consentimento.Assim,ela e minha avó,tomaram a “Maria Fumaça”,na estação da Calçada,rumo ao seu destino,a cidade de Jacobina,lá onde o diabo perdeu as botas e o vento faz a curva,como se diz.Três dias para chegar em Jacobina,com baldeação em Santa Luz;e ,mais um para chegar em Miguel Calmon,remota cidade do interior,perdida nos tempos ,além de mais um dia á cavalo,até a Fazenda Brejo Grande,reduto dos Oliveira,ponto final dela.
Meu avô,Antonio Jerônimo,sabedor da vinda da “fessorinha”,não poupou esforços para buscá-la,lá na Sede.Escolheu o melhor cavalo,manso,bom de trote,que seria a montaria das recém-chegadas,sela própria para mulheres,que sentavam de lado,pois damas não usavam calça comprida;como complemento,um cochonil bem macio,esporas de prata,fortes rapazes para escoltá-las,pois os cangaceiros andaram por ali,descendo a serra do Tombador e tinham que estar preparados para o pior.
Chegada á Fazenda, minha mãe se encantou com tudo, novo para ela:a casa de farinha,o engenho,o pomar,o rio,o curral,a casa grande com mais de dez quartos,uma mesa de refeições,onde caberiam,sem apertos,uns trinta comensais,o povo simples e amistoso,para quem professora era uma espécie de deusa do saber,respeitada e mimada por todos.No dia seguinte ela assumiu a classe;classe essa composta de adultos ,alguns com mais de trinta anos,que não sabiam ler nem escrever.
A matrícula foi hilária; minha mãe perguntava a data de nascimento,mas,ninguém tinha registro,nem certidão,nada,então diziam:-ele nasceu quando o veio Jerônimo levantou a cumeeira da casa do Barreiro;pacientemente,minha mãe perguntava ao meu avô paterno sobre o sucedido e,ele respondia:-ah,foi em outubro de ´27;minha mãe colocava que o cabra nasceu em qualquer dia de 1927,outubro.
Outra chegava meio constrangida,pois tinha perdido o “assento” e não lembrava de nada;assento era o papelzinho onde se assentavam as datas familiares;Os melhores de vida,anotavam na Bíblia,criando um novo Gênesis.
Se minha mãe queria saber de vacinas,respondiam:-no tempo da vourilha(varíola)ele foi avalcinado, adespois disso mais nunca.
Apesar do respeito pela professora,havia garotos que não gostavam de estudar e queriam era viver pelos matos,pegando passarinhos,livres,leves e soltos,subindo nos umbuzeiros ou raspando mandioca para fazer farinha .Assim,fugiam da escola e não aprendiam nada.
Um deles era o Fulgencio,garoto levado,ágil como um cabrito,que se sentava no fundo para fugir mais rápido.Um dia,chegou o Inspetor,que veio ver o progresso da classe;minha mãe preparou todos direitinho,a lição era de Historia,descobrimento do Brasil;como o diabo arma,o Inspetor escolheu logo o Fulgencio,por ser o menorzinho da classe,para responder:-Quem descobriu o Brasil?
O garoto,nervoso,acostumado a ser culpado,com razão,de (quase)todos os mal feitos,respondeu;
-Nun fui eu Sr.Inspetor,eu juro.
O Inspetor insistiu na pergunta,ele negava,minha mãe vexada,chegou a mãe do garoto,ouviu a demanda e falou firme pró Inspetor:
Foi ele ,sim,doto;esse minino é assim,faz as coisas,depois nega,tem a boca dura.
Quatro anos depois minha mãe se casava com meu pai,eu nasci em Salvador,mais voltei prá fazenda com três meses de idade,vivi lá até meus oito anos(ai que saudades que eu tenho...)e minha mãe ensinou lá quase quarenta anos;foi Diretora,Delegada Escolar,e,se alguém quiser contar quantos alunos ela ensinou as primeiras letras,que conte os fios dos seus cabelos brancos,que hoje repousam com Deus.


Gostaram?Esta é uma estória real.
IMG:Minha mãe,a professorinha da estória
PALAVRA DO LEITOR:
O poeta César Ubaldo,escreveu:
PARABÉNS,CARÍSSIMA CONFRADE,PELA MARAVILHOSA NARRATIVA,PELAS BELAS LEMBRANÇAS DE UM TEMPO IMORRIVEL.bEIJO FRATERNO.26/02/10